Três Ranchos: um breve histórico

por Jose Luiz Vaz de Sousa

 “A cada momento histórico cada elemento muda seu papel e a sua posição no sistema temporal e no sistema espacial e, a cada momento, o valor de cada qual deve ser tomado da sua relação com os demais elementos e com o todo”. Milton Santos (1985: 9)

APRESENTAÇÃO

Este trabalho é uma contribuição à sistematização de informações sobre a construção do município de Três Ranchos, buscando desvendar o modo de vida de tantas famílias que nos precederam, homens e mulheres que com seus afazeres forjaram a nossa identidade. Assim, especialmente às novas gerações é dada a oportunidade de conhecer um pouco da nossa história para que a valorizem como o alicerce das vidas de agora. No processo de estabelecimento de novos aglomerados humanos no interior do Brasil, o pioneirismo enfrentou grandes dificuldades. O isolamento era certamente o maior estorvo, causando a necessidade de produzir a maior parte dos mantimentos, em vista da difícil importação de outras regiões. Benefícios hodiernos e triviais como a comunicação, a energia elétrica e tantos outros, há bem pouco tempo é que ficaram disponíveis à população de Três Ranchos. O aparelho de rádio, luxo incomum, servia para ouvir a notícia; transmiti-la daqui, porém, só através do telégrafo, meio de comunicação muito útil por um longo período da história do município, mas que só chegou quando veio a ferrovia, em meados do século XX, tempo em que as primeiras imagens de televisão já eram vistas nos grandes centros do país. Viajar era outra penúria: ia-se aonde ia o trem. Antes dele, somente a cavalo ou no carro-de-bois; a falta de estradas por aqui impedia a mobilidade dos veículos automotores que percorriam velozes o Brasil afora.

 Com o fim destas deficiências, aliado ao advento de novidades próprias do progresso nas últimas décadas, houve em Três Ranchos uma revolução, que alterou rapidamente os hábitos cotidianos das pessoas. Todavia, foi aquele isolamento – o que dificultava a circulação de informações e mercadorias – o mesmo que forçou a comunidade a ir se caracterizando em símbolos e valores culturais singulares, gradativamente apropriados do agregado imigratório oriundo das mais diversas partes do país. O conhecimento que se foi reunindo era essencial para extrair da terra a sobrevivência: a luz das candeias vinha do azeite da mamona, o açúcar mascavo da cana, toda sorte de alimentos e o seu beneficiamento, os tecidos, utensílios domésticos, praticamente tudo se produzia e se fazia numa fazenda daquela época.


De quando em vez, a venda na corrutela era freqüentada em busca de sal e uma ou outra ferramenta. Hoje, sobreviver já não é mais o ofício tão custoso de antes: produtos que eram difíceis de obter a indústria passou a oferecer em série, renovados e inovados a cada minuto. No entanto, nesses tempos em que eventos e mercadorias são tantos e tão acessíveis quanto efêmeros, há o perigo do esquecimento do que aconteceu ontem, das lutas homéricas contra as dificuldades que os nossos ancestrais enfrentaram e das soluções que a alguém de hoje pareceriam inconcebíveis. É preciso conhecer e dar a importância devida a tais detalhes, pois somente assim é possível fazer uma completa tradução do que somos. Um dos momentos mais formidáveis do ser humano ocorre quando ele resgata a sua própria história e compreende como não está apartado da humanidade.

Os Primeiros Tempos O estabelecimento do Distrito de Três Ranchos se deu através da Lei Municipal nº 24, de 19 de dezembro de 1948, e se consolidou “aos treis dias do mês de janeiro de mil novecentos e quarenta e nove, às treze horas” , conforme ata da solenidade na qual compareceram várias autoridades e moradores, interessados na constituição do novo município. Em 19 de outubro de 1953, através da Lei nº 823, decretada pela Assembléia Legislativa do Estado de Goiás e promulgada pelo então Governador Dr Pedro Ludovico Teixeira, o distrito de Três Ranchos foi desmembrado do Município de Catalão, para se tornar “município autônomo com a denominação de Paranaíba de Goiás”, ato que se consolidou em 1º de janeiro de 1955. A ata da sessão de instalação da primeira Câmara de Vereadores foi lavrada em 31 de janeiro de 1955. Embora as provas documentais da emancipação política do Município de Três Ranchos excedam a pouco mais de meio século, esta região já estava ocupada em épocas mais pretéritas.

Primeiro pelos índios, cuja presença era contada por alguns pioneiros que encontravam cacos de panelas e potes de cerâmica enquanto aravam as terras para o plantio das roças. Estes índios eram provavelmente Caiapó, dizimados pelos constantes choques com o branco que entrou em território goiano em busca de ouro e da escravização dos índios desde os primórdios do século XVII. As entradas mais citadas, no entanto, são as ocorridas entre os anos 1712 e 1716, promovidas por Bartolomeu Bueno, que atravessou o Rio Paranaíba nas proximidades de onde está hoje a cidade de Três Ranchos. E assim como se fixou na região um espanhol, da Catalunha, membro de uma daquelas bandeiras (e que deu origem ao nome do vizinho município de Catalão, que abrangia o que hoje é o município de Três Ranchos) é de se imaginar que tenha havido por aqui também algum povoamento. Auguste de Saint-Hilaire, em sua “Viagem à Província de Goiás”, realizada no final da década de 1820, cita a “fazenda dos casados”, um aglomerado de propriedades formado pelos filhos do primeiro proprietário, que iam se casando e construindo suas moradias próximas à do pai; esta fazenda fica na atual região fronteiriça do município de Catalão com Três Ranchos, prova da ocupação da região àquela época.

O documento mais antigo em que há citação ao nome de Três Ranchos data de 1876, uma procuração incluída no formal de partilha da Fazenda Fundos, uma das glebas que formariam o atual município de Três Ranchos, cujo proprietário era Joaquim Ignácio Carneiro – as outras duas maiores fazendas formadoras do município eram a Lagoa, também de Joaquim Ignácio Carneiro, e a Fazenda Sacco, de Cândido Vaz dos Reis. Mais que um certificado da existência de fazendas nessa região, àquela época, o formal de partilha da Fazenda Fundos atesta como o nome “Três Ranchos” já era utilizado no transcurso do século XIX. Outros registros importantes da ocupação da região nesse período são as velhas construções, como algumas sedes de fazendas – inclusive a que pertenceu a Cândido Vaz – cujos estilos e materiais utilizados atestam sua antiguidade, ou a Igreja de Nossa Senhora d’Abadia, erguida em 1882, hoje em ruínas, nas proximidades do atual sítio urbano, mandada construir pela Senhora Elpídia Carneiro, filha de Joaquim Ignácio Carneiro, devota de Nossa Senhora. O nome Há duas versões para a origem do nome do município de Três Ranchos: uma diz que existia nos tempos do desbravamento um ponto de parada e descanso de viajantes, tropeiros e boiadas (indo e vindo das Províncias de Minas Gerais e São Paulo) um lugar próximo ao Rio Paranaíba, onde havia “três ranchos” para o pouso.

A outra versão é de que os “três ranchos” se localizavam em cima da serra, na face oriental, cabeceira de uma mina d’água que ainda hoje existe, e que seria um pequeno quilombo, esconderijo de escravos fugidos dos cativeiros da época. Aquele era um ponto estratégico, pois bastava chegar até o cume da serra para avistar, no lado oeste, a movimentação na Estrada Real do Porto Mão-de-Pau, cujo traçado passava sobre o que é hoje a Avenida Coronel Levino. Instalar-se em elevações fazia parte da estratégia dos quilombos para proteger-se de seus perseguidores. João Calaça de Melo, em depoimento de 1996, atesta que as três famílias que ocupavam aqueles três ranchos no alto da serra eram fugitivas do estado de Minas. A pouca divulgação dessa versão pode dever-se ao histórico preconceito que prefere a história branqueada e heroicizada dos colonizadores, rejeitando a participação e a importância do negro e do índio no processo de construção da nação brasileira. No “Vocabulário Geográfico do Estado de Goiás”, editado pelo IBGE em 1957, o termo “três ranchos” refere-se à “serra entre o córrego Água Limpa e o ribeirão Ouvidor”, no Município de Catalão, algo que evidencia como a denominação dada a Três Ranchos está associado à serra e não a um pouso de viajantes às margens do rio. Ainda que as origens não sejam devidamente esclarecidas, é certo que o nome “Três Ranchos” sempre teve a afeição popular. São comprovadas duas tentativas de mudança da denominação: uma delas ocorreu quando se deu o desmembramento do Distrito de Três Ranchos do Município de Catalão, para se tornar município autônomo com a denominação de Paranaíba de Goiás.

A referência ao Estado, no entanto, não foi suficiente para impedir o grande número de encomendas e correspondências extraviadas para uma cidade homônima no estado do Mato Grosso. Os inconvenientes causados, aliados à preferência da população, fariam com que a denominação voltasse à original. Outra tentativa de mudança foi bem mais discreta, tanto que mesmo os moradores mais antigos a desconhecem: na Ata nº 2, durante a legislatura da primeira Câmara de Vereadores, lavrada em 15 de fevereiro de 1955, consta que o vereador Geraldo Lopes Coelho apresentou projeto de mudança do nome da cidade para Levinópolis. O projeto, uma óbvia homenagem ao sobrenome do Coronel Levino Lopes, não obteve sucesso. Noutros dois documentos se vê referência ao assunto: em 15 de fevereiro de 1955, o Presidente da Câmara enviara ofício ao Prefeito, Sr Luís Ribeiro Horta, solicitando sanção ao autógrafo de lei que “muda o nome desta cidade”. No mesmo documento, e de próprio punho, o prefeito responde que “nega sanção” e dentre os motivos alegados para justificar o seu veto, enumerados noutro ofício datilografado e remetido aos vereadores, está o fato de que “o Município foi recentemente instalado e pouco antes de sua instalação seu nome foi mudado [para Paranaíba de Goiás] fato que na época nenhuma despesa foi efetuada, mas, a mudança atual virá acarretar para o município despesas que na atual emergência não suportará”. Em seguida o Prefeito reitera seu parecer dizendo que “proíbem nossas leis administrativas que se faça previsão de despesas sem o corolário de receita, e esta não sabemos ainda qual seja”.

Em ofício datado de 1º de março de 1955, o Presidente da Câmara, Ranulpho Nascimento, comunica o seu acatamento e dos demais vereadores ao veto do prefeito, “referente à mudança do nome desta cidade para Levinópolis”. Em 1º de dezembro de 1958, para vigorar a partir de 1º de janeiro de 1959 e de forma definitiva, foi decretada a Lei de número 28, que restabeleceu o antigo nome do Município, num texto sucinto e categórico em seu artigo primeiro: “Fica restaurado, para todos os efeitos legais o nome de Três Ranchos, como denominação oficial do Município”. O Rio O Rio Paranaíba corre pelos meandros da história de Três Ranchos desde os seus primórdios: primeiro foi pela fertilidade das terras lindeiras ao rio que vieram os primeiros fazendeiros; em seguida, no transcorrer da década de 1930, a ocupação se ampliou em função do garimpo de diamantes, e vieram de todas as bandas do país muitos interessados em tudo que se relacionava a essa atividade – os próprios garimpeiros, os comerciantes de mantimentos e ferramentas, lapidários, capangueiros etc. Depois que os diamantes desapareceram por causa do represamento do rio, o trabalho se voltou para o turismo, pois a paisagem local – antes composta pela serra, o cerrado, a pequena e bucólica cidade – recebeu um majestoso lago a emoldurar toda a cena, vindo até muito próximo ao centro urbano e atraindo a atenção de muitos visitantes. No caminho para Minas Gerais, havia vários locais no município de travessia sobre o Paranaíba, lugares em que o leito do rio estreitava e a correnteza fazia as canoas deslizarem ligeiras. Desses pontos os mais utilizados eram a Praia Rica, o Mata-Padre – assim chamado pelo acidente ocorrido com um religioso que fazia aquele percurso – e o Porto Mão-de-Pau (porque o primeiro operador da balsa tinha no lugar de uma das mãos uma prótese rústica, feita de madeira). Esse porto foi, até o represamento do rio, de muita serventia para a população e, durante um período do império, o mais rendoso dos portos da província de Goiás. Posteriormente, algumas facilidades como a construção de pontes, fizeram diminuir o movimento no velho porto, mas ainda assim continuou a ser utilizado e a sua necessidade era sentida pelas autoridades: pela Lei nº 12, de 6 de novembro de 1955, a Câmara Municipal autorizou o prefeito Luís Ribeiro Horta a “confeccionar uma balsa para o Porto Mão de Pau”, dando prazo de 60 dias para a realização do trabalho, “findo os quais, sem que o Sr Prefeito tenha feito alguma iniciativa, a Câmara tomará a seu cargo, por uma comissão por ela nomeada, e fará todos os serviços”.

Certamente o prefeito deu cabo da empreitada no prazo determinado, pois em 28 de dezembro do mesmo ano, pelo Decreto nº 14, era estipulada a “tabela de preços de gado vacum e passageiros, para passagem no Porto Mão de Pau” através da balsa. A Economia Por um longo tempo a economia da região vinculou-se às atividades agrícola e pecuária. A primeira tipicamente de subsistência, com pequenos excedentes, por causa da dificuldade de escoamento da produção. A criação de gado, por outro lado, em vista da pouca exigência de meios de transporte, vez que as boiadas podiam ser tocadas, foi atividade mais praticada, tanto para a produção e o consumo de carne, couro, leite e derivados, quanto para a venda e o corte nos frigoríficos de Minas e São Paulo. Uma terceira atividade e que merece nota é a extração da castanha do coco de babaçu , praticada principalmente por mulheres e crianças, e que proporcionava sustento a muitas famílias. O binômio agricultura e pecuária – aliado ao extrativismo da castanha – permaneceu mesmo depois que se descobriram diamantes no leito e margens do Rio Paranaíba, quando a região passou por um processo de povoamento mais intenso, no final da década de 1930 e início da de 1940. Por causa do garimpo de diamantes há relatos de que nessa época havia um pequeno vilarejo no local denominado Mancha Velha , onde primeiro se explorou a atividade garimpeira. Durante muitas décadas, até que a garimpagem fosse cessada pelas águas do reservatório da Usina Hidrelétrica de Emborcação, em 1982, essa lida transformou a vida de muitos aventureiros, vindos de todas as partes do País em busca das pedras preciosas. A Ferrovia Dado a característica das ferrovias como elemento fixador das populações no interior do Brasil – conforme afirmam vários historiadores – à semelhança de um grande número de cidades a inauguração da estrada de ferro foi determinante para que Três Ranchos se constituísse de maneira organizada, justamente nos arredores da estação ferroviária. Evento parecido ocorreu em todo sul goiano, no decorrer da primeira para a segunda década do século vinte, quando a ferrovia adentrou o estado, numa nova e significativa fase para o desenvolvimento de Goiás. No Decreto da instalação do Distrito de Três Ranchos, datado de 19 de dezembro de 1948, consta que a solenidade seria realizada na estação, provavelmente em razão de ser o único prédio público existente à época. Embora já houvesse uma população significativa nas fazendas e o garimpo já causasse alvoroço, na aurora da década de 1940 o aglomerado urbano ainda não existia. Foi somente a partir de 1942, com a inauguração da linha férrea, que a região tomou grande impulso, solidificando as bases para a formação da cidade e a criação do município. O traçado da avenida principal iniciava nas cercanias da estação e seguia o trajeto da via férrea: o relevo, conveniente tanto para as locomotivas quanto para outros veículos, recomendava que as duas estradas seguissem parelhas.

O trecho da estrada de ferro vindo pelo sul, de Patrocínio, no lado mineiro, até Ouvidor, em Goiás, cidade vizinha ao norte de Três Ranchos, teve a construção iniciada em 1932. A inauguração do segmento de Patrocínio a Monte Carmelo, ainda em Minas Gerais, ocorreu em 1937. O segundo trecho, de Monte Carmelo a Ouvidor, passando por Três Ranchos, foi entregue ao tráfego no dia 11 de novembro de 1942, embora num relatório da Rede Mineira de Viação conste como data da inauguração oficial o dia 11 de fevereiro de 1944. Esta foi, no entanto, apenas a data da solenidade política, posto que a ferrovia já estava em operação havia dezesseis meses.

A chegada da ferrovia constituiu-se num grande propulsor da economia regional, pois possibilitava a vinda de insumos e ferramentas com mais quantidade, variedade e celeridade, assim como permitia o escoamento da produção de arroz, feijão, milho e da castanha de babaçu. Também o gado passou a ser transportado pela via férrea, com a vantagem de não perder peso, como quando tocado nas longas jornadas. Para a transposição do Rio Paranaíba foi construída uma ponte que, além dos trens, dava travessia aos pedestres, aumentando o intercâmbio entre as populações de Três Ranchos e dos municípios vizinhos no lado mineiro. Eram comuns as visitas aos parentes e amigos para transmitir as notícias “do outro lado”, assim como fazia parte perguntar pelas novidades aos maquinistas e ferroviários envolvidos no trabalho da ferrovia, que também faziam o favor de trazer e levar recados, cartas e pequenas encomendas.
 A década de 1950 foi o início do declínio da ferrovia no Brasil. Em seguida à vitória dos aliados na Segunda Grande Guerra, capitaneados pelos Estados Unidos, houve uma grande expansão do transporte rodoviário, em detrimento das ferrovias. A influência e o interesse americanos eram evidentes, tantas eram as suas companhias petrolíferas e indústrias de carros, caminhões, pneumáticos etc, ansiando pela ampliação do mercado consumidor de seus produtos. E o transporte ferroviário não se encaixava nesse propósito. Embora Três Ranchos aparentemente estivesse distante da celeuma, o fato é que o transporte ferroviário perdia a importância de outrora, e o desmazelo com a ferrovia fazia as viagens atrasarem e se tornarem cada vez mais preocupantes e inseguras aos usuários. Este pedaço da ferrovia foi desativado e os trilhos retirados no final da década de 1970, para a construção da Usina Hidrelétrica de Emborcação. Também a ponte ferroviária que fazia a ligação entre os municípios de Três Ranchos e Douradoquara foi submersa pelo lago e chegou-se a cogitar a construção de outra ponte, projeto logo em seguida descartado, em vista dos interesses e da influência política de municípios importantes, especialmente do lado mineiro, de onde o tráfego seria desviado, causando-lhes algum reflexo negativo na economia.

 Registro importante do tempo em que a ferrovia passava por Três Ranchos é a Estação Ferroviária, ainda de pé. Pouco alterada em seu aspecto arquitetônico original, da década de 1940, a estação permanece indelével na memória de muitos como o lugar de abraços e adeuses, de um tempo em que o trem promovia encontros e despedidas. Com a ferrovia veio o telégrafo, meio de comunicação fundamental para aquela época, tanto para os avisos sobre o tráfego de trens quanto para aliviar a angústia da população por notícias urgentes e distantes. Outro relevante papel desempenhado pela ferrovia na história de Três Ranchos foi o de estimular a fixação de quem já habitava a região, além de “qualificar” a imigração: seguindo os trilhos vieram professores e outros técnicos, como o farmacêutico Luís Ribeiro Horta, cuja prática profissional (incluída a de médico) fez dele importante figura política em toda região, tendo sido vereador na cidade de Catalão, antes de ser prefeito de Três Ranchos por três mandatos; ainda hoje os moradores mais antigos da margem mineira do Paranaíba se lembram de como se deslocavam para cá em busca dos bons serviços do “Sêo Luís”. Há também as importantes contribuições culturais trazidas pelos ferroviários e suas famílias, vindos de regiões longínquas do país e que fixaram residência aqui.
A linha férrea tinha o seu traçado no município margeando o curso do Córrego Cutia, até a nascente. A cerca de cinco quilômetros da estação ferroviária, nas proximidades da sede da fazenda do Sr Sandoval Inácio Carneiro, as locomotivas a vapor eram abastecidas de água e lenha (ainda está de pé a grande caixa d’água) e os vagões carregados com as telhas produzidas pela Cerâmica Modelo, hoje desativada. Outros empreendimentos e algumas sedes de fazendas eram estrategicamente construídos às margens da ferrovia, de forma a facilitar a utilização desse meio de transporte, o mais eficiente daqueles tempos. Vale acrescentar sobre a ferrovia que, a par de um relevante papel na história do Município, em função dela é que se intensificou o desmatamento na região e grande parte da cobertura vegetal foi transformada em lenha e consumida pelas locomotivas da época, as “marias-fumaça”, máquinas a vapor que dependiam da lenha como combustível. Também os dormentes, utilizados na construção e manutenção da ferrovia, eram obtidos das madeiras de lei hoje quase extintas no Município.

A Três Ranchos de Hoje O processo de urbanização de Três Ranchos intensificou-se após o alagamento das terras do Município que margeavam o Rio Paranaíba, com o término do preenchimento do reservatório da Usina Hidrelétrica de Emborcação, em agosto de 1981, cuja barragem teve a construção iniciada quatro anos antes, em maio de 1977, e que terminou com 156 metros de altura e 1.507 metros de comprimento. O lago formado chega a uma profundidade máxima de 176 m e um volume d’água aproximado de 17,6 bilhões de metros cúbicos, ocupando uma área de 446 quilômetros quadrados – algo equivalente a duas vezes o tamanho da baía da Guanabara. A orientação econômica do município, vinculada originalmente ao extrativismo vegetal – extração da castanha de babaçu e do corte de madeiras para lenha e dormentes da ferrovia – e ao extrativismo mineral – garimpo de diamantes e rutilo – alterou-se radicalmente para o setor terciário, em que predominam as atividades relacionadas à prestação de serviços em clubes, hotéis, bares, restaurantes e similares, salões de beleza, supermercados etc. A construção civil também teve grande expansão durante a década de 1980, contribuindo para o fortalecimento da economia e para o aprendizado de técnicas até então desconhecidas pelos pedreiros locais, trazidas por engenheiros, arquitetos e mestres de obra dos grandes centros, vindo construir as mansões e clubes às margens do lago. O poder público se viu obrigado a intervir, revendo algumas de suas metas, trabalhando, por exemplo, proporcionando uma infra-estrutura mínima adequada à nova tendência do município, assim como propiciando a formação necessária aos trabalhadores. Assim é que os produtores rurais, num processo lento, mas inexorável, também vêm se adaptando, melhorando a qualidade e aumentando a oferta de seus produtos, de forma a suprir a demanda provocada pelos visitantes, ansiosos por conhecer e consumir tudo o que o lugar pode oferecer. Além do turismo convencional, que atrai os visitantes com a beleza do imenso lago e a prática dos esportes náuticos e da pesca, cresce também o interesse pelo turismo de negócios, em que grandes empresas procuram a calma e a paisagem do lugar para suas reuniões e congressos.

Localização do Município: Região centro oeste do Brasil, extremo sudeste do Estado de Goiás, margem direita do rio Paranaíba. A maior parte do Município está no quadrante formado pelas coordenadas geográficas 18º15’S e 18º22’30”S, e 47º45’W e 47º52’30”W. Limita-se ao norte com o município de Ouvidor, ao sul com o estado de Minas Gerais e o município de Catalão, a leste com o estado de Minas Gerais e a oeste com município de Catalão. População Atual: aproximadamente 4.500 habitantes. Área: 256 km². Vias de Acesso: BR 050 (que permite o acesso de mineiros, paulistas e brasilienses) e GO 330 (vindo de Goiânia); ambas chegam à cidade de Catalão. Daí, continuando pela GO 330 por mais 28 km, chega-se a Três Ranchos. Atravessando o Rio Paranaíba para Minas Gerais funcionam diariamente duas balsas, uma que dá acesso ao Município de Grupiara e outra ao Município de Douradoquara.

A primeira Câmara de Vereadores do Município de Três Ranchos era composta por Aparício Cândido dos Reis, Brás Bernardes de Melo, Geraldo Lopes Coelho, Joaquim Raimundo de Lima, José Aires de Souza, José Francisco da Cunha, Lindolfo Gomes da Silva, Manoel Custódio da Silva, Waldemar Pereira Carneiro e Ranulpho Nascimento, sendo este o presidente. Sucederam-se os seguintes prefeitos desde a emancipação política do município de Três Ranchos: Joaquim Bernardes de Melo (interino, indicado para o cargo até a primeira eleição), Luís Ribeiro Horta, Miguel Pereira Coutinho, Luís Ribeiro Horta, Domingos Alves da Silva, Luís Ribeiro Horta, Inácio Pereira, Janete Coelho Pereira, Elizeu Francisco da Cunha, Eurípedes Pereira Ferreira, Rolvander Pereira Wanderley, Janete Coelho Pereira, João Batista Peixoto e Nivaldo da Silva Aguiar.
Bibliografia BABAÇU. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa. Rio De Janeiro: Nova Fronteira, 1994. p. 79. GONÇALVES, Eduardo e AENFER, David. A ferrovia e sua história –Estrada de Ferro Central do Brasil. Rio de Janeiro: Amutrem, 1998. SAINT-HILAIRE, Auguste de (1779-1853). Viagem à província de Goiás. Tradução de Regina Regis Junqueira. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. Col. Reconquista do Brasil, v. 8. 158 p. SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1985. 88 p. TRÊS RANCHOS. In: Vocabulário Geográfico do Estado de Goiás. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1957. p. 223. OUTRAS FONTES Cartório do 1º Ofício de Três Ranchos. Informações orais de antigos ferroviários e moradores de Três Ranchos. Livro de Decretos e Leis do Município de Três Ranchos – de 1955 a 1967. Pasta de Ofícios encaminhados pela Câmara Municipal de Três Ranchos ao Prefeito – de 15 de fevereiro de 1955 a 11 de julho de 1964.